5.12.05

Acontecência marcada

Ele era poeta. Dizem até que já nasceu assim. Desde criança se interessava pelo lado “micro” das coisas, das suas interações. Não olhava para árvores apenas como criadoras de sombra, mas enxergava as minúcias das reações simbióticas entre o ser, o meio e a essência; o que outros chamam de clarividência de energia, ou leitura da aura, ou força... seja o que for. E era assim em tudo, principalmente com as pessoas. As observava atento aos detalhes corporais: cada pausa do diafragma; cada gota de suor que escorria pelo rosto; cada sorriso roto após uma gafe cometida, ou solto após uma emoção sentida, eram notados e traduzidos em metáforas leves, tão leves que ao lê-las, sentíamos essa leveza ser untada em nosso ser, podíamos acompanhar a onda de arrepios somáticos que se estendia até os extremos do nosso corpo, como abalos sísmicos de pele, revirando pêlos. E assim era sua vida; de observações em observações, sem nunca querer mais da existência, senão o aprender.

Ela era independente, dessas mulheres que dizem usar o seu lado prático, e até o usam, porém, nunca pararam para perceber que seus sentimentos devem ser tratados com a atenção que a praticidade de suas ações não dispõe. Possuía um sorriso largo e amizades tórridas, não se desesperava com quaisquer dificuldades, as enfrentava e, geralmente, as dominava. Dizia-se bem resolvida emocionalmente, mas quem poderia prever aquele encontro? Qual lado emocional não se desestabiliza com a paixão?

Amsterdã seria a capital da cultura pernambucana naquela semana, pelo menos uma pequena parte dela. Motivos diferentes os levaram até lá. Ele participava do Fórum Global de Filosofia e Arte, conseguira passagens e hospedagem através de um holandês, que conheceu seu trabalho quando esteve em Olinda, no projeto “arte por toda parte”. Tornaram-se amigos, passaram alguns carnavais no Brasil, e quando a oportunidade apareceu, o convidou para a mostra de poesia durante o fórum.

Ela também adorava carnaval. O motivo que a levou à Holanda foi fazer uma cobertura jornalística da viagem de blocos carnavalescos pela Europa.

O canal Prinsengracht, perto do centro, virou o ponto de encontro de brasileiros que habitam o Velho Mundo. Todos queriam matar um pouco da saudade de casa ao som do velho frevo do Vassourinhas (deve ser o mais conhecido no mundo inteiro), e lá, entre um passo e uma tapioca ocorreu o encontro:

– De onde tu és?

Perguntou em português mesmo, afinal a camisa dela tinha a estampa da bandeira de Pernambuco com a caricatura grafitada de Chico Science, e não era fácil encontrar esse tipo de "moda" nos Países Baixos.

– Sou do Recife, e você?
– De Olinda.

Pela primeira vez as palavras sumiram de sua língua, talvez por ter em vista uma outra, a que sempre procurou em cantos encobertos pelo desejo, pelo afã de um beijo que o despertasse para o tão sonhado amor...

Ela também emudeceu por alguns segundos. Achava que atravessar o Atlântico para encontrar alguém que faria seu coração palpitar seria, no mínimo, inusitado, mesmo porque, estava a trabalho e sua praticidade não a deixava relaxada para coisas do coração.

Talvez tenha sido amor à primeira vista, afinal, o quê dizer daquele aperto no peito, do calafrio na espinha e da vontade que a noite se estendesse para sempre... (olha o sempre aí, de novo) ... alguns dizem que é paixão, tem gente até estudando os efeitos de hormônios em nosso corpo que, com o tempo aniquilam os efeitos intrigantes desses caminhos cercados de interdependências entre cúmplices.

O que sei é que já se passaram dois anos, desde o ocorrido, e que nunca mais voltaram para o Brasil, estão morando em Frankfurt e, pelo que sei, não pretendem voltar.

3 comentários:

Claudia Perotti disse...

Que sejam felizes para sempre!
Beijos

Mack disse...

Como eu gostaria de poder escrever assim a história da minha vida... Enquanto lia o texto, sonhava com um amor, também chegado há dois anos. Nada de Europa, tínhamos a pele queimada do sol recifense mesmo. Ele me olhou primeiro, mas eu me antecipei em ficar apaixonada. A ordem agora já nem importa mais. Mudamos o rumo das nossas vidas. Ele continua observando. Mas minha praticidade se perde ao mínimo som da sua voz. E o aMoR? Ah, esse só cresceu.

Quem dera ser feliz para sempre! (e olha o sempre aí de novo)

Beijo.

Laura disse...

ah o amor...
obrigada pelo comentário lá no blog, um bj laura